Os deuses condenaram Sísifo a incessantemente rolar uma rocha até o topo de uma montanha, de onde a pedra cairia de volta devido ao seu próprio peso. Eles pensaram, com alguma razão, que não há punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.
Quanto a este mito, vê-se simplesmente todo o esforço de um corpo esforçando-se para levantar a imensa pedra, rolá-la e empurrá-la ladeira acima centenas de vezes; vê-se o rosto comprimido, a face apertada contra a pedra, o ombro que escora a massa recoberta de terra, os pés apoiando, o impulso com os braços estendidos, a segurança totalmente humana de duas mãos cobertas de terra. Ao final deste longo esforço medido pelo espaço e tempo infinitos, o objetivo é atingido.
Então Sísifo observa a rocha rolar para baixo em poucos segundos, em direção ao reino dos mortos, de onde ele terá que empurrá-la novamente em direção ao cume. Ele desce para a planície. É durante este retorno, esta pausa, que Sísifo me interessa.
Um rosto que trabalhou tão próximo à pedra, já é a própria pedra!
Eu vejo aquele homem descendo com um passo muito medido, em direção ao tormento que ele sabe que nunca terá fim. Aquela hora, que é como um momento de respiração, que sempre voltará assim como seu sofrimento; é a hora da consciência.
Eu vejo aquele homem descendo com um passo muito medido, em direção ao tormento que ele sabe que nunca terá fim. Aquela hora, que é como um momento de respiração, que sempre voltará assim como seu sofrimento; é a hora da consciência.
Onde estaria realmente sua tortura se a cada passo a esperança de prosperar o sustentasse? O trabalhador de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas, e seu destino não é menos absurdo. Mas é trágico apenas nos raros momentos em que ele toma consciência. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e rebelde, sabe a total extensão de sua miserável condição: é nisso que ele pensa durante sua descida. A lucidez que deveria constituir sua tortura ao mesmo tempo coroa sua vitória.
Fonte: www.radames.manosso.nom.br
Comentário
Somos todos Sísifo, Quando apegado em nossa credulidade e “ingenuidade” conduzimos os políticos ao cume da montanha, ao topo mais alto, até que, “desprevenidos”, somos pegos de surpresa, quando as nossas esperanças rolam montanha abaixo, e todos os esforços, desejos, sonhos, são desmoronados para ceder lugar a angustia, ao sofrimento. E, cabisbaixos, descemos o cume em uma longa trajetória; tristes, desolados, sem esperanças, por todo trabalho em vão, por todo o trabalho inútil; quando quatro anos depois chegamos ao fundo do poço para mais uma vez, conduzirmos a mesma pedra para o alto, o mesmo político, com a mesma esperança, até que, ao chegar ao cume, tudo cai novamente, e repetimos tudo, como d’antes. Será o eterno sofrimento? Não merecemos algo diferente?

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