sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

UMA CRÔNICA A VILA NOVA

Formoso céu de Vila Nova, hoje meus olhos tiveram a felicidade de contemplar, mesmo que de longe, a poética tonalidade de teu crepúsculo, d’onde parece-me que via numa bruma aureolada, um entrançado de repentes de Antonio Teixeira e Chico Antonio, de Valdemar Teixeira e Manoel, de Basto violeiro e do velho Paulírio. era um embolar constante, um emaranhado de cordas de viola e guizos ensurdecedores de pandeiros e ganzás. misturavam-se os cocos e galopes ao cantarolar intuitivo do boi-de-reis de João Joaquim, que parecia em suas cores, trazer o colorido dos pinceis de Alcides Fernandes com a monótona poesia de Telma Galvão e a “atrevidez” dos sonetos de Marcos Teixeira, desafiando na sua ignorância, a deus e ao diabo.
Invejo os antigos tupiniquins, que com o teu barro maleável, lapidaram sua cerâmica e assim cozinharam seus manjares pitorescos a margem do temporário Curimataú e como Moisés, atravessaram muitas vezes a pé enxuto, teu leito fértil como o vale do Nilo sem que para isso tivessem ao menos que tocar-te com o cajado bento.
Líbano imortal que conservas como num afresco, o teu centenário histórico, alimento certo de oligarquias políticas, desde os maranhões aos charlatões do presente que se quer identidade possuem.
Vila Nova! Vila Nova! Será que a alvorada de uma nova era me encontrará por compor ainda, um soneto de repúdio a essa falta de identidade cultural e social que permeia teu universo, neste ainda infante século vinte e um? Ou serei mais um sonhador a ingressar ao ventre infecundo de tuas entranhas sem que o brilho de meus olhos opacos sejam testemunhas de um só ato de amor a tua fértil, porém estéril terra?
Tuas ruínas não estão só na Cuitezeiras, onde o incansável guardião insiste em contar-te para os poucos visitantes que te vão tão somente por obrigação e, que apesar de ruínas, estão nas ruínas do abandono. As ruínas que me incomodam, são as do presente. A ruína de tua identidade cultural. A ruína moral de tuas famílias, feridas pela modernidade e pelo neo-sincronismo do caráter palpável que já abstratos, não mais nos fornecem a condição de te resgatar como valor absoluto. Afinal nada mais é absoluto.
A dor, assim como o prazer, tem um limite: extingue-se quando o coração se sacia e se caleja.
Não tenho motivos aparentes para te amar. Afinal nunca me fosse “pátria amada, idolatrada salve, salve”. Mas como um revolucionário, sinto a tua dor, testemunho tua lamúria e convido-te a dividir tua angústia comigo, pois os filhos do diabo, estão por corroer tuas entranhas, enquanto que teus filhos, assistem apáticos o filme da desgraça que se capitula ano após anos, compondo as décadas e já o século de descaso e alimento do ócio inescrupuloso dos famigerados pagãos, que por ti desfilam.
A ignorância é o flagelo da humanidade. É a doença do século. A mãe do descaso, da corrupção, da leviandade , do mal. A ignorância é a videira da miséria. Miséria moral, política e social, que atormenta os filhos do bem. E tu, Vila Nova, estás sendo vitima dessa mazela. D’onde homens que deviam produzir o saber, estão a alimentar o ódio, a maldade, a intriga, a leviandade, a corrupção política, moral e social e por eles estás transformada numa Sodoma.
Clamo-te! Resistes enquanto preparamos o holocausto dos indecentes e o sopro de vida dos que ainda assim te amam.


Marcos Teixeira - O CRONISTA

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